Por Pe. Gottardo,SJ

Estamos no tempo litúrgico do Advento. À luz da percuciente reflexão do teólogo, Marco Pedron, recolho alguns tópicos interessantes sobre a ação da palavra de Deus que se movimenta em direção a João Batista, no deserto, e ganha a máxima visibilidade histórica, na Encarnação do verbo no ventre de Maria (cf. Lc 1,26-38).

A palavra de Deus foi dirigida a João, no deserto” (cf. Lc 3,2). Indubitavelmente, João Batista foi uma figura fundamental para Jesus. Foi seu iniciador e provavelmente também seu discípulo. Historicamente, Jesus considerava o Batista como mestre e alguém superior a ele, fez-se batizar por ele para obter o perdão dos próprios pecados. Ele se considerava um dos muitos em Israel que queriam se converter para escapar do iminente e severo juízo de Deus. Depois, Jesus assumiu a própria vocação e se afastou de João (cf. Mt 11,2-15; Lc 7,18-30).

“No décimo ano do império de Tibério César…”. O evangelista Lucas, como os grandes escritores de seu tempo, enquadra a história que está ocorrendo na grande história. Faz questão de elencar os nomes dos soberanos do seu tempo: políticos e religiosos (cf. Lc 3,1-3). Um dado salta aos olhos: Deus não desce onde os grandes deste mundo vivem e exercem seus podres poderes.

A palavra de Deus não é dirigida no “deserto” dos palácios. Antes, Deus desce e dirige sua palavra libertadora ao capelão que atua na prisão e “vê” diante de si não criminosos malditos, mas seres humanos; Deus desce e dirige sua palavra luminosa sobre pessoas que não obstante as hostilidades e conflitos de interesses acreditam na construção do reino da paz e da justiça; Deus desce e dirige sua palavra sanadora às famílias que para salvar a santidade do matrimônio decidem construir pontes ao invés de muros, decidem perdoar que alimentar mágoas e ressentimentos.

A palavra de Deus desceu sobre João, filho de Zacarias, no deserto, e o tornou Precursor. Pedron observa que o verbo “descer” (gignomai, em grego) também significa “nascer, gerar”. É um encontro vivo, que transforma, o que faz florescer e gera seus frutos. Após essa descida, o Batista parte para toda a região para pregar.

Quando a palavra de Deus, no começo da história, desceu sobre a criação surgiu o céu e a terra e todos os seres vivos. Quando a palavra de Deus, através do anjo Gabriel pousou sobre Maria, Jesus foi concebido. Quando a palavra que desceu sobre João o impele a profetizar e preparar os caminhos do Senhor. Efetivamente, Deus quando intervém produz uma nova criação e ‘renova a face da terra’. Portanto, o encontro com Deus é sempre um encontro que recria, que transforma e faz germinar o novo. É êxodo, é movimento de saída.

Ouvir a palavra de Deus implica “comê-la, mastigá-la, assimilá-la” (cf. Ez 3,1-3). Quem o faz jamais será o mesmo. A palavra de Deus quando lida e saboreada produz mudanças incríveis e abre os sentidos à Vida que pulsa e quer expandir-se. Há o conhecido e clássico episódio na vida de São Francisco de Assis: “Francisco, vai e reconstrói a minha igreja casa que, como vês, está ruindo”. Após ouvir este pungente apelo não foi mais o mesmo. No começo não sabia direito do que se tratava, mas com o tempo reconheceu tratar-se da palavra de Deus.

Quantas palavras ouvimos durante uma jornada! Mas a palavra de Deus não se confunde com elas. Quantas palavras religiosas nós pronunciamos em nossas vidas! Mas a palavra de Deus não se reduz a elas. Quantas vezes ouvimos o evangelho! Mas a palavra de Deus sempre nos desafia ao magis, a superar-nos e a reinventarmo-nos.

A palavra de Deus é aquela palavra que penetra nas nossas profundezas, sacode a nossa consciência, às vezes, entorpecida (é sempre desestabilizadora) toca as feridas e nos faz encarar as nossas contradições. É aquela palavra/experiência que sempre vem à mente, mesmo que não saibamos o porquê; ela ressoa, perturba, chama e nos arranca das zonas de conforto. É a palavra que não nos deixa indiferentes. É essa palavra que cria o novo, faz crescer e faz emergir o “eu” criado por Deus.

São Paulo expressa de modo magistral o que é a palavra de Deus: “A palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes; penetra até dividir a alma e espírito, junturas e medulas. Ela examina as disposições e as intenções do coração. E não há criatura que possa se esconder à sua presença. Tudo está nu e descoberto aos olhos daquele que devemos prestar contas” (cf. He 4,12-13).

A palavra de Deus, portanto, não é uma palavra entre tantas outras! Ela é performativa, ou seja, por ser “viva e eficaz” fecunda a realidade e se torna evento capaz de recriar o mundo e conduzir à salvação quem a ela se abre e a acolhe.

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