– O assunto é quente e urgente. Meditar é preciso –

“Que coisa é a conversão da alma senão um homem que mergulha dentro de si e vê a si mesmo” (Pe Vieira).

A liturgia do último domingo (25), o 3º do TC, lembrou-nos que Deus nos ama e nos chama à vida plena e verdadeira. Entretanto, a nossa resposta ao chamado de Deus passa pelo caminho da conversão pessoal e de identificação progressiva com Jesus. O convite de Jesus é dirigido a todos os seres humanos; Ele deseja que todos se tornem seus discípulos e se integrem à comunidade cristã. É categórico quando afirma: “Cumpriu-se o tempo: convertei-vos e crede no evangelho” (Mc 1,15), ou seja, não há mais tempo a perder. O evangelista Marcos avisa, contudo, que a entrada na comunidade do Reino não é automática, antes pressupõe um caminho de “conversão” e de adesão a Jesus e ao Evangelho.

Quando contemplamos a realidade que nos rodeia, notamos a existência de sombras que desfiguram a criação de Deus e criam, tantas vezes, angústia, desilusão, desespero e sofrimento na nossa vida vivida. Esse quadro não é, no entanto, uma situação irremediável a qual estamos condenados (“vale de lágrimas”). Deus deseja que as nossas relações com Ele, com a criação e com os outros seja marcada pela harmonia, pela justiça, pela reconciliação, pelo amor e pela paz, isto é, pelos critérios do Reino que Ele inaugurou na pessoa do Filho. É esse mundo novo que Jesus chamava de “Reino de Deus”. É esse projeto que Jesus nos apresenta e ao qual nos convida a aderir. Somos chamados a construir, com Jesus, uma realidade onde Deus reine de fato, onde tudo seja edificado de acordo com os projetos e com os critérios de Deus. Estamos disponíveis para entrar nessa aventura e/ou preferidos nos esconder por detrás das máscaras do egoísmo, da arrogância e das vaidades?

Para que o “Reino de Deus” se torne uma realidade palpável, o que é preciso fazer? Na perspectiva de Jesus, o “Reino de Deus” exige, antes de mais, a “conversão”, ou seja, mudança de mentalidade (metanoia). Para abraçarmos a proposta do Reino temos de modificar o nosso estilo de vida, a nossa escala de valores, as nossas atitudes, a nossa linguagem, a nossa forma de encarar a realidade; enfim temos de desenvolver habilidades para ver mundo com os olhos de Deus. Temos de alterar as nossas atitudes de egoísmo, de orgulho, de autossuficiência, de cinismo e de voltar a escutar Deus que “grita” aos nossos ouvidos para que aconteça na nossa vida e à nossa volta, uma transformação profunda, onde os indeclináveis valores do amor, da justiça e da paz triunfem.

Efetivamente, estamos saturados e fartos dos “valores” do antireino: há muita agressividade no ar e também nas nossas palavras, muita intolerância nas nossas atitudes e muita violência no seio da sociedade. A mentira campeia. E a maldição da corrupção?! Até quando vai durar a paciência de Deus diante de bestialidade humana?! Há, contudo uma questão aberta e cáustica: Sentimos a necessidade da conversão?! O que devemos “converter” em termos pessoais (eu: inúmeros são os vícios!) e em termos institucionais (família, igreja e sociedade) – para que se manifeste, realmente, o Reino de Deus tão esperado? Estamos dispostos a acolher a proposta de Jesus e a mudar de vida ou preferimos nos acomodar no medo covarde que nada arrisca? Por isso, a necessidade a conversão é uma exigência permanente. O pecado nos acompanha qual sombra…

De acordo com a Palavra de Deus que nos é proposta a construção do “Reino de Deus” exige como pressuposto a fé. “Acreditar” não significa apenas aceitar certas afirmações teóricas e/ou concordar com um conjunto de verdades a propósito de Deus, de Jesus e da Igreja; mas é, sobretudo, uma adesão total à pessoa de Jesus e ao seu projeto de vida, com a sua pessoa, com as suas palavras, com os seus gestos e atitudes. Jesus propôs a todos uma vida de fraternidade, de doação incondicional, de serviço simples e humilde e de perdão sem limites. Discípulo é quem se dispõe a escutar e a internalizar o chamado de Jesus e segui-lo até as últimas consequências. Pergunta-se: Estou/amos disposto acolher o chamado de Jesus e a percorrer o caminho do cruz e/ou prefiro viver encastelado na perigosa cegueira e na zona cinzenta das supostas seguranças? Há muita indolência e muita preguiça para “em tudo amar e servir”. As desculpas para não se comprometer com nada às vezes são ridículas e enervantes. Entretanto, a Escritura é clara: não há salvação pra gente morna!

O convite que o Filho de Deus nos dirige no sentido de fazermos parte da comunidade do “Reino” não é algo reservado a um grupo de privilegiados, com uma missão especial no mundo e na Igreja; mas é algo que Deus dirige a cada homem e a cada mulher, sem exceção. Todos os batizados somos chamados a sermos discípulos e missionários de Jesus, a “converter-se”, a “acreditar no Evangelho”, a seguir Jesus nos caminhos da história. Não é moleza; não é pra gente frouxa; é algo radical que desinstala. Exige que o “Reino” se torne o valor supremo e a prioridade absoluta na vida do discípulo (cf Lc 9,62). Infelizmente, muitos batizados, hoje, são mais afeitos aos modismos, às futilidades do mundo e aos fantoches patrocinados pela mídia que abraçar a Causa do reino de Deus que deixar-se impactar pelos valores que a traça não corrói. São milhões àqueles que trocam a Missa do domingo, por exemplo, pelos passeios nas catedrais pós-modernas, ou seja, nos shopping centers. Triste constatação.

Sim. E por falar em shopping centers, Frei Betto, sempre mordente e crítico, escreveu: “Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita  uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história  daquela cidade – a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média,  as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil,  constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas;  neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de  missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas… Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito,  entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar,  certamente vai se sentir no inferno”. E assim muitos fingem que vivem… E vão vivendo no mundo da fantasia. Entretanto, “viver é perigoso” (G. Rosa).

O “Reino” é uma realidade que Jesus começou e que já está decisivamente implantada na nossa história. A semente já foi lançada abundantemente à terra e adubada pelo sangue redentor de Jesus. Não conhece fronteiras materiais nem tempo nem lugar. É um processo de cristificação do mundo que exige nossa adesão e nossa participação. O Reino de Deus acontece e se concretiza através dos gestos de bondade, de serviço, de doação, de amor gratuito que realizamos; eles dão visibilidade ao amor de Deus nas nossas vidas. Quem serve a Igreja, por exemplo, através das pastorais e/ou participa de movimentos está servindo o Reino de Deus.

É importante lembrar que a Igreja só tem sentido na história quando se torna sinal transparente do Reino inaugurado por Jesus. O Reino não é uma realidade que construímos de uma vez por todas, mas é uma realidade sempre em construção (processo) até a realização final, no fim dos tempos, quando o egoísmo, o pecado e a morte serão suprimidos para sempre (cf. Ap  21,1-5) e Deus será tudo em todos (cf. 1Cor 15,28).

Nova Trento, 25 de janeiro de 2015

Pe. Gottardo,sj

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