Por Pe. Gottardo,SJ

O termo esclerocardia (= dureza de coração) aparece muitas vezes na Bíblia. O livro do Eclesiástico, por exemplo, faz referência aos 600.000 judeus que foram punidos e não entraram na terra prometida por causa desta terrível doença. Trata-se da falta de coração, falta de amor; enrijecimento mental que se mostra no preconceito, na resistência e no fechamento ao novo. Trata-se de um modo de vida blindado, por isso mesmo, impenetrável. A esclerocardia é um pecado grave que pode conduzir à danação eterna. “E tu, Cafarnaum, que te elevas até o céu, serás precipitada até aos infernos” (cf. Lc  10,15).

O termo é recorrente também no Evangelho de Jesus (cf. Mc 10,5). Via de regra Jesus se refere ao fechamento mental e às atitudes intransigentes das autoridades religiosas de seu tempo. Assim como na doença, o endurecimento das artérias impedem o fluxo do sangue comprometendo a vitalidade dos órgãos vitais do corpo, assim também a “dureza do coração” atrofia a vida e causa a morte da “alma”. Via de regra, quando se perde a referência à palavra de Deus, agarra-se tenazmente às tradições humanas: leis, normas, preceitos, opinião pública, etc.; prescindindo de Deus, a vida perde a vitalidade, se estiola e morre.

Para o senso comum o coração, além de ser um órgão vital, é a sede dos sentimentos: do amor e de todos os outros sentimentos relativos: compaixão, bondade, ternura, misericórdia, simpatia, amizade, afeição, bondade e assim por diante. Estes sentimentos, lembra o teólogo italiano, Alberto Brignoli, na cultura judaica se referiam às entranhas (vísceras). Não por acaso, eram sentimentos mais “femininos” que “masculinos”; só podia conhecer o sentido profundo do amor quem gerava vida em suas entranhas.

Brignoli afirma que no mundo judaico o termo coração indicava o lugar que alberga a razão, a compreensão, as escolhas racionais da vida, os projetos que uma pessoa tem em mente para si e/ou para os entes queridos, sobretudo se informados pela força da luz da Palavra de Deus. Por isso, no Antigo Testamento, a dureza de coração era referida quase que exclusivamente aos tempos em que o povo de Israel se recusou a ouvir a voz de Deus: esta recusa impediu que a linfa vital da Palavra de Deus penetrasse no coração do povo e o tornasse vivo e pulsante. Pecado, idolatria e a obstinação são extensões da esclerocardia.

A dureza de coração dos crentes em Israel impediu-os a de compreender a profundidade do desígnio de Deus sobre a história. Mas o homem traiu a confiança de Deus (cf. Gn 3,5), pensando que ele poderia seguramente viver sem ele. Diante da obstinação do homem Deus deixou o homem livre para fazer suas escolhas; e, mesmo sendo contrário ao seu desígnio, se viu “forçado” a inspirar as leis, regras e preceitos para que se dessem conta da dureza do próprio coração, ou seja, da incapacidade do homem de retornar à beleza das origens, onde a relação de Deus com as criaturas não era mediada por nenhuma lei exceto a do amor confiante e incondicional.

Brignoli reconhece que, hoje, a dureza do coração tem muitas facetas. À luz da palavra de Deus podemos identificar algumas manifestações do coração encouraçado ligadas à vida familiar e aos relacionamentos em geral. A esclerose do coração se revela:

  • Nas vezes que, ao afirmarmos que amamos alguém, impedimo-lo de ser ele mesmo negando-lhe a liberdade, e desconfiamos dele;
  • Quando não respeitamos o outro, quando o consideramos apenas um objeto (propriedade) para ser usado à vontade, até ser descartado;
  • Quando temos medo de abandonar o “pai” e “mãe”, ou seja, a segurança do ninho no qual nascemos (zona de conforto), para voar no céu de vida com aqueles que são mais pai e mãe;
  • Quando optamos por viver dentro de uma bolha que apenas confirma nossas ideologias, crenças e bizarrices sem nunca mudar de opinião;
  • Nas vezes que transformamos Deus num ídolo para justificar as nossas mentiras e imposturas, e confundimos a religião como lugar onde se celebra a “morte de deus”, e não o Deus da vida que “quer fazer novas todas as coisas” (cf. Ap 21,5).
  • Quando pensamos que podemos fazer qualquer coisa na vida (caprichos) prescindindo das demandas do outro;
  • Nas vezes que escandalizamos os pequenos, os idosos, as pessoas doentes, os portadores de deficiência, os solitários, os pobres e todos aqueles/as que achamos que nos fazem perder tempo, como se tivéssemos o rei na barriga.
  • Quando nos julgamos os tais acima do bem e do mal, sempre prontos para disparar torpedos de ódio e de raiva contra o “diferente” sem dar-se conta da hipocrisia e da arrogância infantil.

É importante lembrar que a Palavra afirma que temos apenas uma coisa a fazer: retornar às origens (cf. Ap 2,4-5), onde o outro não era um problema e um adversário a ser batido, mas uma ajuda, um companheiro/a; o outro/a era alguém semelhante a nós, em tudo. Talvez isso nos ajude a ser menos convencidos e menos esclerosados, em todos os sentidos. Enfim, “todo o que não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele” (cf. Mc 10,15).

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