A quaresma é, no calendário litúrgico, o grande período que leva ao fiel católico o apelo de Deus para a conversão do homem.Trata-se de um tempo de aproximadamente quarenta dias, iniciado na quarta-feira de cinzas e encerrado na quinta-feira santa à tarde, quando começam as celebrações que compõem o tríduo pascal.

 

Eis o tempo de conversão

A quaresma, propriamente dita, é dividida em duas partes. Numa primeira somos convidados a nos convertermos. São João Batista, que é rememorado no tempo do advento como o anunciador do nascimento, retorna na quaresma para nos lembrar que o reino de Deus se aproxima – e para tal, é preciso estarmos prontos. O apelo de Jesus também toma, nesse período, um caráter de urgência: “fazei penitência e crede no Evangelho” (Mc 1,15).

O capítulo 6 de são Mateus nos dá as diretrizes gerais para que vivamos bem a quaresma: jejum, oração e esmola (ou, em outras palavras, caridade). Desde sempre a Igreja, em sua sabedoria, compreende que esses três pilares são fundamentais para aquilo que os antigos padres gregos chamam de Theosis, isto é, a aproximação do humano com o Divino. Através da oração nos conectamos com Deus e com sua vontade; na caridade dilatamos nosso coração e nos encontramos com o Cristo que há em nossos irmãos; e por fim, pelo jejum e pela abstinência, domamos os vícios que maculam o divino que há em nós mesmos, enquanto filhos do Pai.

Dessa forma, a quaresma deve ser vivida com profundo anseio pela busca de um homem novo, configurado ao modo de agir e pensar de Jesus. Somos chamados a lavarmos nossas feridas na misericórdia de Deus, em seu amor salvífico. Como parafraseava o papa são Pio X, é um convite para “restaurar tudo em Cristo”.

 

Eis o cordeiro de Deus, eis aquele que tira o pecado do mundo

A segunda parta da quaresma começa no quarto domingo, chamado de Laetare (do latim, alegra-te!) A antífona da missa desse dia diz: Alegra-te, Jerusalém. Reuni-vos, vós todos que a amais; vós que estais tristes, exultai de alegria! É um cântico suave, que anuncia a proximidade da salvação e da consolação. Nesse dia, em específico, a liturgia permite o uso da cor rosa nos paramentos, para anunciar que a redenção se aproxima. O roxo próprio da quaresma se dilui assim no branco, formando o tom da Alegria esperançosa. Embora ainda seja um tempo quaresmal, o fiel é convidado a exultar a Deus, a confiar nEle. O texto do Evangelho do Laetare sempre remete à misericórdia divina, que contempla com compaixão todos os seus filhos.

Desse dia até a quinta-feira santa dá-se início à segunda parte da quaresma, onde o tom central é o do batismo. Mergulhamos no mistério da redenção do mundo, do Cristo que, por amor infinito, se doou até a morte na cruz. Somos convidados a contemplarmos o sofrimento, a dor e a angustia daquele Deus que, encarnando-se num corpo humano, acabou rejeitado e crucificado pelos que deveriam na verdade amá-lo. É ele, Jesus, o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e que restitui ao homem a sua dignidade original. Através de Cristo a possibilidade da santidade, antes invisível à nossa espécie, dos é dada novamente.

 

Peculiaridades da quaresma

A quaresma é um tempo sóbrio, e toda a liturgia dessa época reflete isso:

  • Não deve-se ornar o altar com flores durante esse período. Toda a decoração urge ser discreta e sutil.
  • A cor do tempo é o roxo, uma mistura do azul do céu com o vermelho do nosso sangue. O simbolismo que traz é o da penitência, da atenção, da conversão.
  • Os instrumentos musicais devem ser contidos. Dê-se preferência a cantos suaves e observe-se a necessidade do silêncio e da contemplação.
  • A quaresma dura 40 dias, pois o número é bíblico e representa a preparação. Para entender mais, clique aqui.
  • Não se faz jejuns aos domingos, mesmo durante a quaresma. Para compensá-los, o período se estende até a tarde da quinta-feita santa.
  • Durante a quaresma não se canta o Glória e o Aleluia, pois é um tempo penitencial, um tempo de conversão. O Glória é um canto de Exultação e o Aleluia de alegria. Esse último propriamente, é o canto próprio do tempo pascal, não condizendo com esses dias de preparação. Já ao Glória, abre-se uma exceção durante as solenidades, como a anunciação e a festa de são José, por seu caráter mais contido.

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