Uma mulher fabulosa; professora, mãe, esposa e servidora fiel do Reino de Deus. Seguidora incansável do Mestre Jesus. Adorava estar no meio de nós irmãos e de servir na casa do pai. Atuou incansavelmente em nossa Paróquia: Era conselheira de pastorais na comunidade da Matriz, atuou na pastoral da liturgia, foi catequista, foi coordenadora da pastoral dos ministros extraordinários e do Movimento RCC. Auxiliou na pastoral do consolo e da Esperança, ajudou na animação dos GBF. integrava o Apostolado da Oração e auxiliava como ministra na celebração, toda terça-feira, no hospital. Com carinho hospedava seminaristas em sua casa. O que dizer dessa mulher, cuja vida parece inteiramente devotada ao reino de Deus? 

– Enelita Medeiros, coord. do CPC Matriz

As palavras que certamente melhor podem expressar o significado desse momento de dor e perda para toda a comunidade foram aquelas mesmas ditas pelo nosso pároco, Pe. Roberto, durante a celebração das exéquias, e que são aqui transcritas por nós:

SOBRE O REPOUSO ETERNO 

-Por ocasião do passamento da sra. Lurdinha Voltolini Archer-

Por Pe. Roberto Gottardo

 

“Meu desejo é ver Deus. E, como dizia Freud, se eu morrer e chegar à presença de Deus, teria muito mais coisas a perguntar para Ele do que Ele para mim” (L. Boff).

Todos nós conhecemos a jaculatória que é recitada e repetida nas celebrações de exéquias: “Dai-lhe, Senhor, o repouso eterno”, que mais parece uma espécie de condenação à prisão perpétua, ou seja, auspicia-se ao ente querido que permaneça ‘para sempre’ imóvel numa cama (repouso).

Certa criança ao ouvir esta frase repetida várias vezes, disse à mãe: “Eu não quero descansar no céu, quero uma bicicleta e uma bola pra brincar. Não quero descansar!”. Na verdade, ela estava certa! Porque o “céu” entendido como lugar estático e melancolicamente monótono não é, digamos, muito animador. O problema está na fragilidade da formação religiosa que recebemos e passamos adiante.

No livro do Apocalipse (cf. Ap 14,13), uma voz do céu diz: “Felizes os mortos, os que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o espírito, que descansem de suas fadigas, pois suas obras os acompanham”. Naquele tempo se acreditava efetivamente que Deus havia criado o mundo trabalhando seis dias e no sétimo descansou. Entendia-se o “repouso” não como contemplação das maravilhas da criação (“e Deus viu que tudo era bom”, cf. Gn 1,31), mas como inatividade absoluta.

Marco Pedron sustenta que entrar “no repouso do Senhor” não significa cessar a atividade por toda a vida, por toda a eternidade, não fazer nada, descansar em paz e “para sempre”, mas a expressão é uma metáfora/imagem que pretende indicar que as pessoas que transvivenciam estão associadas à atividade criativa de Deus. Como? O amor (ações concretas) que praticamos e vivemos nesta vida nos associa imediatamente a Deus para continuar a amar e a construir o mundo novo. Portanto, quando estivermos no Paraíso, continuaremos a amar e a trabalhar. Pe. Antônio Vieira ensinou: “No nascimento, somos filhos de nossos pais; na ressurreição, seremos filhos de nossas obras”.

No Céu continuaremos a construir, a conviver e a trabalhar com amor junto de Deus que é amor (cf. Jo 5,17), e de seus anjos. Portanto, imaginar que o repouso eterno signifique não fazer nada é falso. O céu seria insuportável e tedioso. É por isso que pedimos a intercessão dos santos e a clemência dos nossos entes queridos que nos precederam. E fazemos bem, porque quem está em Deus e com Deus só sabe fazer uma coisa: amar aqueles que ainda peregrinam por este mundo. No Credo Católico há um artigo de fé importante: “Creio na comunhão dos santos”. Às vezes, podemos ter a impressão de estarmos separados dos mortos, mas estamos profundamente unidos a eles; os mortos são apenas invisíveis, não ausentes.

Deus, que é amor, reconhece o amor naqueles que o tem no coração e vivem ‘em tudo amando e servindo’ com alegria. Outras coisas não lhe interessam. Deus é indiferente à fama, às glórias do mundo, ao sucesso, às honras vãs, aos títulos. Por que? Porque vanitas vanitatum et omnia vanitas (cf. Ecle 1,1). A linguagem de Deus é o Amor. Em Deus, ou seja, no Paraíso, a única linguagem compreendida e falada é o amor: é por isso que só entra no Céu quem fala o idioma do amor. E’ l’amore che ci porta Di Là, con Lui. Nient’altro. No céu não há espaço para penetras (cf. Mt 22,12).

Nós não acabamos na morte. Transformamo-nos pela morte, pois ela representa a porta de ingresso ao mundo que não conhece a morte, onde não há o tempo mas só a eternidade” (Boff). Por mais que sejamos esquisitos e nos estranhamos uns aos outros por causa da ignorância, em Deus estamos todos ligados quer com os vivos quer com os ressuscitados. Aqueles que estão imerso no oceano do Amor trabalham para o nosso bem.

Admirado com a dedicação e o espírito de entrega dos filhos no cuidado com a mãe até o fim, lembro-me do lindo poeminha da C. Lispector: “Mas há a vida que é para ser intensamente vivida. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata”. Concluo esta modesta reflexão, evocando o conhecido sábio indiano, Osho: “Se amas uma flor, não a recolhas. Se a recolheres ela morrerá e deixará de ser aquilo que tu amas. Então, se amas uma flor deixa-a “ser”. O amor não se trata de possessão, mas sim de apreciação/contemplação”. Requiescat in Pace.

Por fim, nossa comunidade paroquial só pode desejar força para a família, e comungar da doce certeza de que Lurdinha, em seu amor, está agora nos braços misericordiosos do Pai.

 

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