Por Jean Bunn

Não há como negar que os reis magos são figuras icônicas do tempo do Natal, tanto liturgicamente quanto na cultura popular. Há até mesmo uma solenidade que marca a visita deles ao Menino-Deus: a Epifania de Nosso Senhor. A maioria dos cristãos também já decorou os nomes dos reis, oriundos de tradições apócrifas, e os presentes que carregavam: Baltazar, Gaspar e Melchior, que levaram a Jesus ouro, incenso e mirra.

A verdade é que o evangelho de são Mateus (o único a narrar os fatos) não define quem ou quantos eram. A primeira referência ao número e aos nomes surge posteriormente. Em hebraico, Melchior é “rei da luz” (melichior), Gaspar “o branco” (gathaspa) e Baltasar “senhor dos tesouros” (bithisarea). Também a origem deles é incerta. Alguns apontam que seriam reis da Europa, da África e da Ásia. Outras fontes, mais plausíveis, os colocam como governantes do Império Persa. Melchior era rei dos Persas, Baltasar o incumbido da Índia e Gaspar  a comandaria região da Arábia.

Mas, ignorando as especulações sobre os nomes e a origem dos magos, uma coisa é certa: Os presentes oferecidos foram ouro, incenso e mirra (cf. Mt 2,11-12). São Mateus, inspirado por Deus, tem o cuidado de nos apresentar quais foram as oferendas e de dispô-las nessa ordem, Num primeiro momento pode parecer algum costume estranho da época. Presentes excêntricos, afirmaria um cristão ao ler a passagem sem cuidado. Talvez nem conheça bem todas as ofertas. O que é mirra, afinal?

O significado das ofertas

A verdade é que ouro, incenso e mirra representam o reconhecimento de todas as dimensões do ministério de Cristo. O ouro era destinado à confecção de moedas e a ornar os trajes reais; o incenso, utilizado por sacerdotes no templo, e a mirra, por fim, embalsamava os cadáveres dos mortos.

São Gregório Magno nos elucida de forma muito sensível a importância dessa questão, dizendo:
Os Magos que adoram o Cristo também O proclamam com presentes místicos: que Ele é rei, com o ouro; que é Deus, com o incenso; e que é mortal, com a mirra. De fato, são muitos os hereges que acreditam em Deus, mas de modo algum acreditam que Ele reina em todos os lugares. Esses certamente Lhe oferecem incenso, mas o ouro não querem ofertar. São muitos também os que O estimam como rei, mas O negam enquanto Deus. Esses, como se pode ver, oferecem-Lhe ouro, mas o incenso não querem ofertar. Há muitos, enfim, que O exaltam tanto como Deus como rei, mas negam que Ele tenha assumido a carne mortal. Esses oferecem-Lhe muito ouro e incenso, mas a mirra da mortalidade assumida não querem ofertar.

São Mateus se dirige a nós ao escrever essa passagem. Devemos ofertar o ouro, em reconhecimento ao reinado e ao triunfo do Amor, que é Cristo. Devemos ofertar o incenso, confessando que ele é o Deus verdadeiro. E devemos ofertar também o incenso, crendo que ele assumiu nossa condição carnal para trazer a Graça à humanidade.

Mas os presentes dos reis possuem um sentido moral. O mesmo são Gregório nos diz que o ouro significa a sabedoria (cf. Pr 21,20), o incenso retrata as nossas orações, que sobem ao céu como fumaça perfumada (cf. Sl 140,2), e por fim a mirra nos fala da mortificação da carne, que goteja das mãos como mirra (cf. Ct 5,5). É interessante notar que os pais gregos assumiam a mirra também como a caridade e o recolhimento, formas de mortificações mais próprias ao tempo do Advento.

Enquanto verdadeiros cristãos, somos convidados a sentir o apelo por trás das palavras do evangelista e a oferecer, ao Deus que nasce na manjedoura: ouro, ao adorarmos ele com todo nosso entendimento; incenso, com a fumaça de nossas orações; e por fim a mirra, praticando a caridade e a penitência. Somente esses são os presentes verdadeiramente adequados ao Menino que espera nascer, da mesma forma que em Belém, na simplicidade de nossos corações.

 

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