“Todas as pessoas podem ser grandes porque todas podem servir. Não é preciso ter um diploma universitário para servir. Não é preciso fazer concordar o sujeito e o verbo para servir. Basta um coração cheio de graça. Uma alma gerada pelo amor” (Luther King).

O evangelho (cf. Mc 1,29-39) do quinto domingo do TC, constitui bela síntese da missão de Jesus: Ele veio para levantar os homens feridos no seu corpo e no seu espírito. Jesus exercia uma atração irresistível sobre as pessoas, que o buscavam ávidas para ouvi-lo e serem curadas por ele. “Pregar e curar: esta foi a principal atividade de Jesus na sua vida pública” (papa Francisco).

Ao tomar pela mão a sogra de Pedro, quis atingir a mão de todos os estropiados e enfermos que se arrastam nos descaminhos da vida. Ele veio, com o seu exemplo, dizer-nos que somos chamados a entrar em relação com Deus: “A glória de Deus é o homem vivo, a vida do homem é a visão de Deus”, dizia S. Irineu.

O encontro com o Deus do “Reino” é sempre uma experiência maravilhosa. Ele vem ao nosso encontro e nos levanta: “Ao divino contato, desapareceu a febre num instante e a cura foi tão completa que ela pôde servir à mesa aos seus hóspedes”. Aceitar o convite de Jesus e segui-lo significa romper com as cadeias do egoísmo, do orgulho, do comodismo, da mentira, da injustiça, do pecado que impedem a nossa felicidade e que geram sofrimento, opressão e morte nas nossas vidas e na vida dos nossos irmãos.

Infelizmente, hoje, vivemos imersos na cultura do descartável, da sem-vergonhice e do mau caratismo consentido: quantos adultérios! Quantas traições! Quantos escândalos! E quantas sangrias do interior das famílias por causa do fascínio das obras do Maligno! Muitos senhores (pais de família) ao invés, de freqüentarem a Igreja e ouvir a Palavra de Deus preferem os botecos e os vícios. Pode-se esperar algo de bom e de saudável nesses ambientes?!

No entanto, quem se encontra com Jesus, escuta e acolhe a sua mensagem e adere ao “Reino”, assume o compromisso de plasmar a vida segundo os critérios do Evangelho e a viver no amor, no perdão, na tolerância, no respeito e no serviço aos irmãos e irmãs. É – na perspectiva da catequese que o Evangelho de hoje nos apresenta – um “levantar-se”, um ressuscitar para a vida nova e eterna.

A história da sogra de Pedro que, depois do encontro com Jesus, “pôs-se a servir” os que estavam na casa mostra o quão eficaz e transformador é o encontro com Jesus que se fez, para nós, “Caminho, Verdade e Vida” (cf. Jo 14,6). Quem encontra Jesus e aceita inserir-se na dinâmica do “Reino”, compromete-se com a transformação do mundo… Compromete-se a realizar, em favor dos irmãos, os mesmos “milagres” de Jesus e a levar vida, paz e esperança aos doentes, aos injustiçados e perseguidos, especialmente aos que sofrem. A propósito: os meus gestos e as minhas palavras são sinais da vida de Deus (“milagres”) para os irmãos que caminham comigo?

A multidão que se concentra à porta da “casa de Pedro” representa a humanidade cansada e desiludida pelos podres poderes deste mundo; é a multidão daqueles/as que não suportam mais tanta frustração, violência, injustiça, miséria, exclusão e a falta de amor, como também a manipulação do nome de Deus e a praga do fundamentalismo religiosos de todos os naipes. A Igreja de Jesus (a “casa de Pedro”) tem uma proposta libertadora que vem do próprio Jesus e que deve ser oferecida a todos aqueles/as que vivem prisioneiros nas cadeias do pecado.

O exemplo de Jesus mostra que o aparecimento do “Reino de Deus” está ligado a uma vida de comunhão e de diálogo com Deus “em espírito e verdade”. Nada de teatralidades fúteis. Não obstante ter-se se tornado uma espécie de “celebridade” (“todos te procuram”), Jesus escapa da tentação do exibicionismo e do glamour de ser um pop star, retira-se para rezar, ainda de madrugada. O Perigo de perder o focus da missão é real. Quem adora holofotes são as mariposas… Rezar não é fugir do mundo ou alienar-se dos problemas do mundo e dos dramas dos irmãos… Mas é uma tomada de consciência dos projetos de Deus para o mundo e um ponto de partida para o compromisso com o “Reino”. O problema é que hoje “falamos muito de Deus, mas falamos pouco com Ele” (J. Pagola).

É preciso, pois, que enquanto discípulos encontremos espaços e ambientes propícios para a oração e para o diálogo íntimo com Deus. Na perspectiva do evangelho e marcos estar doente (febre) significa estar impossibilitado de servir o Reino de Deus. No interior da Igreja curar-se da febre significa superar a cegueira, o medo das mudanças e a ignorância acerca das potencialidades revolucionárias do evangelho. Dizia o sábio hindu, Tagore: “Adormeci e sonhei que a vida era alegria; despertei e vi que a vida era serviço; servi e vi que o serviço era uma alegria”.

 

Nova Trento, 10 de fevereiro de 2015

Pe. Gottardo,sj

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